Onde você comprou tinha pra macho?

Posted by Ricardo Oliveros on Jul 15, 2009 in MODA, ponto de vista, últimas |

Acho esta uma das piadinhas mais sem graça do planeta e a resposta então, nem é bom repetir. Mas por incrível que pareça, ela ainda assombra a maioria dos homens em pleno século XXI.

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Look do desfile de Verão 2010 de João Pimenta

A querida Marcia Mesquita, com a qual trabalho indiretamente porque ela faz a assessoria de imprensa de uma marca masculina, e tem o blog Bainha de Fita Crepe, o nome é uma referência ao mundo dos editoriais em que não só as bainhas com feitas de fita crepe, mas com muito prendedor escondido para dar um up na roupa fotografada.

Ela publicou a Triologia: Moda dos Machos onde ela entrevista o Felipe, depois o Eduardo e termina a série comigo. Eu gostei bastante porque é raro ver homens heteros falando de moda com tanta naturalidade e desenvoltura.

O que me chamou bastante atenção na declaração deles foi quando a Marcia perguntou para o Felipe:

B: Você acha que o tempo e as viagens que fez à Europa abriram um pouco seus conceitos de moda? (Ele morou na França por um tempo)
F: Com certeza abriu minha cabeça e passei a prestar mais atenção na moda. Acho que o jeito de vestir-se indica um pouco da personalidade. O brasileiro é mais careta em diversos aspectos. O jovem europeu experimenta muito mais com a roupa. Nota-se nas ruas que os jovens, de modo geral, fogem da caretice. Usam não só roupas diferentes, como muitos acessórios. Acho que a grande quantidade de brechós e os preços acessíveis durante as liquidações possibilitam tudo isso para eles.
Entra aí, também, um aspecto sociológico: o olhar julgador é bem menos repressivo que aqui no Brasil. Os mais antigos lidam melhor com a transgressão dos jovens e não dão tanta bola pras maluquices que vêem nas ruas. E, claro, os mais novos estão se lixando para o que eles acham. (…)

E depois para o Eduardo:

B: Você consegue definir um estilo seu de se vestir? Queria ter outro, ser mais estiloso? Ou acha que cabra macho não tem disso?
E:
De maneira geral, as pessoas são conservadoras para se vestir e isso, dentro de determinados nichos, deixa tudo mais sem graça, igual, principalmente entre os homens.
Acho que isso está aos poucos mudando, mas os homens ainda têm medo de serem julgados por vestir algo diferente. A memória histórica do homem ainda o faz crer que pensar em roupa é coisa de mulher. (…)

Sem serem especialistas, os 2 tocaram num ponto chave da discussão entre moda e gênero, assunto já publicado pelo Vitor Angelo na sua sensacional Semana Lula Rodrigues.

Todo mundo sabe da ladainha que a moda masculina demora para avançar, tanto que a Gloria Kalil declarou no Roda Viva que não existe coisa mais chata que desfile masculino. Na entrevista no Bainha eu comento sobre a declaração.

Por outro lado, se a moda masculina avança muito pelo menos por aqui não vai ter muito comprador, já que como vimos ninguém quer ouvir a famosa piada do título. Nem os gays pelo que tenho visto.

Já comentei o fato aqui no blog e no Bainha: “Hoje a maioria de gays que vejo está mais interessado em usar roupas que transmitem uma certa virilidade quase heterossexual. O período da transgressão gay pelas roupas já passou, é uma lenda urbana. Se você for a uma boate gay vai ver um monte de bichas usando bonés, corrente no pescoço, camiseta e calça jeans, o mesmo modelo usado por pitboys que adoram bater em homossexuais. Entendeu a perversão da coisa?”

Este mito do homem macho tem uma coisa também perversa no meio. A liberdade como sabemos é perigosa. Se todos fossemos livres para fazermos nossas escolhas sejam políticas ou sociais, o mundo seria outro. A sociedade então foi criando mecanismos cada vez mais sofisticados de controle para que a gente nem percebesse isso.

A filosofia já debateu muita esta questão em textos clássicos como “O discurso da servidão voluntária” de Étienne de La Boetie, ou no contundente “Vigiar e Punir” do Michel Foucault. Na literatura, um dos grandes exemplos é “1984″ de George Orwell. Caso você não tenha lido, mais ou menos, de uma forma rasteira, é este o pensamento que está por detrás da triologia “Matrix”.

Sim, penso que a cada risinho boçal, a cada pergunta idiota que se repete, sobre o que o outro está vestindo, o que temos no fundo é a perpetuação de um status quo de um tempo e espaço onde ninguém é livre ou feliz.

Porque no final das contas, só numa sociedade decadente que o diferente pode ser considerado anormal, e não uma possibilidade de diálogo sobre coisas que você não sabe ou não viu!

Assim, prefiro usar roupas que distinguem e me diferem, mesmo que tenha que ouvir para o resto da vida, “onde você comprou tinha pra macho?”. Para mim elas são sinais que eu tomei a pilula certa se eu fosse o Neo.

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5 Comments

gabriela casartelli
Jul 15, 2009 at 9:59 pm

e como é bom quando a gente toma a pílula certa. texto fantástico esse é o melhor da moda: pensar a moda. parabéns mais uma vez. mesmo que as vezes nao comente, sou uma visitinha constante aqui no Foda de Moda. ;)
beyjos


 
Marcelona
Jul 15, 2009 at 10:13 pm

Acho que a frase era “Onde vc comprou tinha pra homem?”…

Pior ainda, não?

e por falar nisso, tá arrasando no catwalk??? Rs…


 
márcia mesquita
Jul 16, 2009 at 1:49 am

que máximoooo o post. isso que é legal nos blogs né, esse diálogo! O Felipe, um dos meus amigos entrevistados, me falou agora que amou a série também e sua entrevista.

o diferente, ou a voz discordante da maioria, sempre é combatida, mesmo que dentor da minoria, né? pra ter personalidade no visual, tem que ter bem formada a personalidade de verdade, a de dentro… adorei

bjs


 
Doug Oberherr
Jul 16, 2009 at 1:04 pm

Oi Ricardo, adorei o texto.
Confesso que esse tema chama muito a atenção, pois se trata de uma briga entre dois ou mais pontos de vista: o de quem usa e o de quem vê uma roupa.
Numa recente palestra do Michel Mafesolli, ele diz que “nos vestimos através do olhar do outro” e que ” esse comportamento só vai acabar quando o ser humano deixar de ver seu corpo como uma coisa, um objeto a ser dominado”.
Concordo, pois a maioria dos homens, héteros ou gays expressam uma identidade que se espera ser vista. Não que de fato ela não exista, mas que não é 100% verdadeira.
Temos muito chão para percorrer até entendermos o real significado do nosso corpo e da relação que ele exerce com outros corpos.
Fica um abraço pra ti!


 
Lucas Bettin
Aug 27, 2009 at 1:33 am

AMEI o texto! PARABENS!!!

Vou entrar sempre!!

=DDDDDDDDD


 

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