Marie Rucki 13/04: falta de corte e costura nas idéias (parte II)

Posted by Ricardo Oliveros on Apr 14, 2009 in Arte, MODA, ponto de vista, últimas |

Até aqui até que estava tudo bem. Era só um preambulo para a apresentação de Fabrice Paineau, professor do Studio Berçot. Eu já estava me acostumando ao frances mais pausado de Rucki e quando Fabrice começou a falar, era aquela rapidez que eles usam entre si e me deixa meio atordoado. Ele disse que não era nem historiador de moda, nem de cinema e sim jornalista.

Croqui de Adrian para Madame Satan (1932) de Cecil B. DeMille

Era dele a missão de fazer as relações entre moda e cinema. Ele começou focando em Adrian, importante figurinista de mais de 200 filmes, que trabalhou e vestiu estrelas como Greta Garbo, Norma Shearer, Jeanette MacDonald, Jean Harlow, Katharine Hepburn e Joan Crawford. No começo de sua carreira teve forte influência de Paul Poiret.

1912: ilustração de Georges Barbier para as criações de Paul Poiret

Eu não sei se eram as interrupções constantes de Marie Rucki, as tentativas de estabelecer relações entre a era de ouro de Hollywood com a moda hoje, ou conversas entre os dois do tipo “achei último desfile da Miu Miu um retorno às origens da marca”, a qual Rucki respondia “quando Miuccia criou a Prada queria isso, e com Miu Miu aquilo”. Afe! Parecia que eles não se encontraram pós-temporada e estavam colocando a conversa em dia.

Assim como procurei entender o raciocinio da lingua francesa no começo do outro post, aqui uso o rondó. ” O Rondó vem da dança francesa ‘Rondeau’ (literalmente ‘Roda’), de caráter circular, que também fazia parte da suíte de danças barroca, em que um tema é sempre retomado depois de passar por uma série de variações. O rondó seria assim: Tema A - Tema B - Tema A - Tema C - Tema A e final (A-B-A-C-A). Cada seção intermediária, ou episódio, possui algum tipo de constraste à primeira seção A”.

Paineau tinha um tema A (cinema e a moda), partia em vários instantes para o tema B (a influência do cinema na moda hoje). Então voltava para o Tema A para provar sua tese. Só que havia um tema C (as divagações de Marie Rucki).

O problema é que faltou uma linha de raciocínio mais clara. Uma coisa é estabelecer as relações entre moda e cinema como fez Marie Rucki na introdução. Outra é fazer as relações entre moda e cinema em determinados períodos e ver como elas chegaram até nós. Agora ao oscilar entre as duas ficou bem difícil acompanhar.

Marlene Dietrich em Shangai Express (1932)

Um bom exemplo disso foi mostrar como Adrian foi influenciado por Poiret, ou como ambos foram influenciados pelos Balés Russos de Diaghilev. Isto entremeado de várias histórias e imagens que iam e voltavam em épocas diferentes, abordando as diferença dos métodos de trabalhos de Adrian e Edith Head. Vez ou outra mostrava como Teda Bara está em Galliano hoje, ou Shangai Express está em Lanvin de Alber Elbaz.

Com muito esforço e concentração dava para separar em duas palestras diferentes. Numa linha de discurso estava uma certa simplificação que o figurino de cinema apresentou dos anos de ouro de Hollywood, em especial nos filmes de Cecil B. DeMille, assim como na criação das imagens das divas indo em direção ao tom naturalista e simplificado que o cinema foi adotando.

Greta Garbo versão diva em Mata Hari

Para tanto, bastava focar nas trajetórias de Adrian e Greta Garbo. Por exemplo, em Mata Hari (1931) as influências de Diaghilev, de Poiret, do Art Deco, a exacerbação barroca dos figurinos, a criação da imagem da diva distante da mulher do mundo real estão todos presentes.

No lado oposto, a simplificação está no último filme da atriz, “Two-Faced Woman” (1941) de George Cukor. Ao revelar uma faceta de uma mulher real, o diretor e ela acabaram por destruir um mito. Na época, Adrian declarou:

“It was because of Garbo that I left MGM. In her last picture they wanted to make her a sweater girl, a real American type. I said, ‘When the glamour ends for Garbo, it also ends for me. She has created a type. If you destroy that illusion, you destroy her.’ When Garbo walked out of the studio, glamour went with her, and so did I”.

Greta Garbo na versão normal em Two Faced Woman

Se por outro lado, ele queria provar a influência que o cinema da década de 30 tem na moda atual, com a retomada nas últimas coleções de uma certo luxo e glamour perdido numa época em que não existem mais divas e sim celebridades, talvez os filmes de Cecil B. DeMille e os desfiles de John Galliano estariam de bom tamanho e aí sim, ficaria claro como Shangai Express influenciou Alber Elbaz.

Corpão de Mae West que serviu de inspiração para…

Ou como foi :uma das melhores histórias da noite: como o corpo de Mae West foi a inspiração para o frasco de perfume Shocking de Elsa Schiaparelli depois que ela desenhou o vestido para formas curvelíneas da atriz americana em Every Day’s a Holiday. Idéia que foi “atualizada” por Jean Paul-Gaultier nos seus perfumes.

para o perfume Shocking (1937) de Elsa Schiaparelli…

…e que se não serviu de inspiração para Jean Paul-Gaultier, já que ele diz que foi inspirado na Madonna,a idéia é a mesma.

Isso é um esforço que fiz de ler e reler minhas anotações em busca de uma linha de raciocinio claro. Santo Google. Foi a partir da frase final de Marie Rucki que repensei a palestra como um todo.

“Devemos tentar entender de onde vem as idéias. Um mito pode se tornar real, pode ser copiado. O mesmo legging de Mata Hari, está na coleção atual de Jean Paul-Gaultier em couro. Este legging depois vai estar na Zara”.

UFA! Precisava de tanto rodeio para dizer isso??? Usando a linguagem do cinema, com alguns cortes e uma boa edição a palestra poderia ter sido um sucesso de bilheteria. Ou se preferir a linguagem da moda, com um bom corte e muita costura, a palestra cairia bem melhor.

LEIA A PRIMEIRA PARTE DA PALESTRA

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4 Comments


[...] LEIA A SEGUNDA PARTE DA PALESTRA [...]


 
james cesari
Apr 14, 2009 at 1:46 pm

a palestra ta aqui resumidinha e muuito bem explicada por um olhar afiado.
valeu! muito!
(se parar pra pensar … economizei horrores rs rs)


 
Marta De Divitiis
Apr 14, 2009 at 4:11 pm

Nossa, adorei sua conclusão e acredito que deve ter sido um sofrimento tentar acompanhar essas linhas emaranhadas….


 
Erico Marmiroli
Apr 14, 2009 at 11:44 pm

Valeu pelo otimo post. Com certeza, a sra. Rucki fez um longo caminho para explicar todo o percurso das referencias. Mas voce tirou de letra e ‘amarrou’ tudo mto bem!!!!!


 

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