Marie Rucki 13/04: trailer é melhor que o filme (parte I)
Uma língua sempre é a revelação de como um povo pensa e se expressa. Eu sempre me impressiono como os franceses se manifestam. Nunca é de forma direta, existe uma certa sedução, uma certa preparação, quase um anuncio do que pretendem dizer, sem contar os inúmeros adjetivos que vão qualificando e desenhando aquilo que dizem. Quem já foi paquerado (a) por um frances(a) sabe o que quero dizer. Outro exemplo bem simples é como são os números para eles: 99 é quatre-vingts, dix-neuf, ou seja, quatro vezes vinte mais dez mais nove.
Digo isso só para preparar meu querido leitor. A coisa não foi fácil na primeira palestra da Marie Rucki sobre as relações entre moda e cinema. E olhe que tenho uma certa cultura cinematográfica e de história da moda, então não era um assunto que eu desconheça. Mas vamos lá.
ESTILO X LOOK
Campanha da Louis Vuitton com Madonna: a capacidade de juntar coisas de Marc Jacobs
Madame Rucki começou super bem. Fez uma distinção entre estilo e aparência, ou entre “chic” e “allure”, ou ainda entre “style” e “look”. Disse que o estilo é a anti-moda porque não aceita o acidental, onde as escolhas são mais limitadas, por causa de um código mais rigoroso e mais amplamente aceito (conclusão minha). Já o look faz parte do atual sistema de moda, é efêmero, renova, refresca a visão de algo que já foi visto, permite-se camadas diferentes de significados, cores, texturas. Uma referência disto é Marc Jacobs e Nicolas Ghesquière com seus jogos de colagens e sobreposições de estilos e épocas. Adorei esta definição.
CINEMA X MODA
Teda Bara em Salome (1918)
Ainda no seu prólogo, afirma que o cinema é uma linguagem artística e que a moda vem sendo reconhecida por suas qualidades artísticas. Bom, só esta parte daria um post imenso sobre se cinema é arte ou moda é arte, porque ambas as linguagens pertecem a indústria cultural e há todo uma discussão filosófica sobre o assunto, desde que a Escola de Frankfurt resolveu fazer sua crítica sobre a sociedade moderna, como Adorno e Horkheimer escreveram “A Dialética do Esclarecimento” ou Benjamin “A obra de arte na época da reprodutibilidade técnica”. Mas isso é uma outra história, e não quero desaminar ninguém…
Desfile de John Galliano Inverno 09
Mas teve uma frase de Rucki bem interessante: “Um desfile dura 15 minutos e um filme pode durar 100 anos”. Porém, mesmo com esta consideração, não nega que as duas senhoras tem muito em comum e ambas se alimentam uma da outra, e esse seria o centro da palestra.
CINEMA É UMA FORMA DE SE RECONHECER UMA ÉPOCA
Este é o ponto alto e aqui poderia ter terminado a palestra. Eu nunca havia percebido que mesmo num filme histórico, destes que reconstituem uma época, ainda assim continuam ser um testemunho do período em que foram filmados. O exemplo que ela escolheu foram tres versões de Maria Antonieta.
O primeiro Marie Antoinette (1938) dirigido por W.S. Van Dyke com Norma Scheare. O que a Marie Rucki nos fez perceber que mesmo numa reconstituição num flime histórico os ideiais de beleza e moda estão presentes. O rosto simples e feminino de Norma Scheare, seu tipo físico, o modo como anda, gesticula e se movimenta, falam muito sobre o ideal feminino da década de 30/40. UAU!!! Foi uma revelação.
Depois citou “Marie Antoinette reine de France (1958) de Jean Dellanoy com Michèle Morgan. Ela tem um tipo físico mais sexy, bem ao gosto da década de 50, com decotes generosos, além de usar jóias contemporâneas de Cartier.
A última, como todos sabemos é Marie Antoinette (2006) de Sofia Copolla, com Kirsten Dust. Eu não sabia que a diretora foi estagiária da Maison Chanel, então para Rucki, ela não dissocia a imagem da moda da imagem do cinema, e mesmo com a reconstuição histórica, ela preserva uma estética contemporânea, com alguma imagens que parecem um videoclip de uma banda.
Até aqui tudo bem, não é? Depois…







[...] LEIA A PRIMEIRA PARTE DA PALESTRA [...]
ai, nem me fala porque me dá até dor no coração de não poder ir!!!
ooooww ricardo… delicia de post… but… 99 no frances é 4 x 20 + 19… e nao … 10 + 9…
bjs
Oi James, coloquei dez mais nove por causa da separação por hifen entre dix e neuf, já que não se usa dixneuf. Ok, poderia colocar 10 e 9….; )
Adorei essa primeira parte. Quanto à identificação da época em que foi filmada eu acho corretíssimo e dá para observar esse tipo de coisa em filmes não tão elaborados como esses. Aqui e ali a gente nota algumas caracaterísticas que revelam o período em que foi realizada a produção.
Gato, devia ter conversado comigo que eu tinha te contado tudo isso há pelo menos dez anos, regado a dry martini… no Rtiz! HAHAHAHAHAHA
Querido,
Só deixo meu comment de presente hoje porque ontem não consegui nem ver meus e-mails. E não foi por culpa dos piratas do Speedy, não… A vida tá corrida, bandida e impune.
Cada dia leio com mais gosto seu blog incrível, e gostaria de registrar que aprendo muito.
Tem post que dá vontade de imprimir só pra ler, e reler e tentar absorver o máximo. Guardar pra nunca esquecer. Como este da Marie Ruckie, e a série prometida até o fim da semana - tô acompanhando feito novela, me roendo pelo próximo capítulo.
Bjo [meu e do Enio tb] no coração!
Adorei ter te visto lá! Parabéns pela pincelada! vou até salvar pois complementa bastante as minhas anotações.
E não nos “abandone”!!
Abraço